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LANÇAMENTO | “O que não tem censura nem nunca terá”, apresenta a repressão artística a Chico Buarque durante a ditadura

09/07/2024

- Por Vanessa Machado Flores

O gênio censurado

A ditadura militar que governou o Brasil de 1964 a 1985 coincidiu com a fase inicial da carreira de Chico Buarque (1944-), um dos maiores compositores da história da música brasileira. Foi em 1966 que o jovem estudante de arquitetura lançou “A banda”, seu primeiro grande sucesso. Nesse mesmo ano, “Tamandaré”, outra composição sua, foi proibida pelo Serviço de Censura, por ofender o almirante Tamandaré, o patrono da Marinha. Era o primeiro encontro de Chico com a Censura – o primeiro de muitos.

 

No ano seguinte, seria a vez de Roda viva (peça de sua autoria dirigida por José Celso Martinez Corrêa) ser alvo dos censores. Em dezembro de 1968 era baixado o Ato Institucional no 5, que suspendia todas as garantias constitucionais e dava início aos “anos de chumbo”. A partir daí, os artistas brasileiros não teriam mais paz. Para Chico, veio o autoexílio na Itália, a atividade de correspondente informal do contracultural O Pasquim e a criação de músicas antológicas, sob o tacão da Censura.

 

Nunca alguém havia recebido uma marcação tão forte e injusta na cultura brasileira. Em determinado momento, [...] três de cada quatro composições que ele produzia eram censuradas, tornando impossível a montagem de um repertório mínimo para um show ou um disco. Em última análise, Chico atravessou boa parte dos anos 70 proibido de criar.”

 

Foram dezenas de composições; algumas proibidas de imediato, e outras – como “Apesar de você” (1970) – que passaram inicialmente despercebidas pelo radar dos censores (não muito versados em sutilezas). Chico, articulado e bem-humorado, defendia-se concedendo inúmeras entrevistas. Resultado: tornou-se a face mais expressiva da resistência democrática. Algumas de suas criações, como “Cálice” (cale-se?), com Gilberto Gil, se tornaram hinos de oposição ao regime militar. Talvez nenhum outro artista tenha sido tão sistematicamente perseguido como Chico. Isso durou até o álbum Francisco, lançado em 1987 – quando se preparava a Constituição Cidadã, que, promulgada em 1988, passou a garantir a liberdade de criação artística.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Márcio Pinheiro analisa brilhantemente como as obras de Chico, e suas parcerias, recheadas de críticas sociais afiadas e poesia engajada, irritaram os censores e o colocaram na mira do regime. Um excelente livro de música, arte, cultura e história. 

Disponível no site www.lpm.com.br e nas livrarias de todo o Brasil